14/12/09
Cineasta e ator de "Superoutro" se conheceram na encenação de uma peça de formatura
De Raul Moreira*, especial para A TARDE
Para se digerir o "Superoutro" na sua totalidade, fundamental se faz compreender o momento histórico no qual ele foi maturado e a natureza dos personagens que deram-lhe vida, no caso o diretor Edgard Navarro e o ator Bertrand Duarte, protagonistas absolutos da obra-prima baiana que completa 20 anos.
Ex-estudante de engenharia, antes de realizar "Superoutro", o soteropolitano Edgard Navarro já era um cineasta “transloucado” e de reconhecido talento dentro e fora da Bahia.
Por dois anos seguidos (1985 e 1986), ganhou o prêmio de Melhor Curta no Festival de Brasília, com "Porta de Fogo" e "Lin e Katazan", como, também, havia se destacado pela natureza nada convencional de suas ficções, como "O Rei do Cagaço", “deliciosa” imersão em um cinema verdadeiramente escatológico a toque de Super-8.
Mosqueteiro
Conhecido como um dos quatro mosqueteiros do grupo Lumbra, do qual faziam parte os não menos transloucados Pola Ribeiro, Fernando Bélens e José Araripe, todos cineastas, na sua visceralidade Navarro vivia os seus dias como se fossem os últimos.
E, a partir de tal pulsão, fica mais fácil compreender como ele construiu o "Superoutro", seu filme mais lembrado, ainda que o premiado longa "Eu Me Lembro", vencedor de 7 prêmios no Festival de Brasília de 2005, encante.
Já o bonfinense Bertrand Duarte, o “príncipe”, é o outro lado da medalha que encaixou-se como uma luva na trama. Então ator de teatro, quis o destino que ele atuasse justamente na peça de formatura de Edgard Navarro, em 1986, de título "Deus", adaptação de um texto do norte-americano Wood Allen.
Empolgado com o jovem e promissor talento, o cineasta o escolheu para dar corpo ao seu "Superoutro". Escapando à construção de um personagem meramente panfletário, algo tentador numa época em que o Brasil saía de uma longa ditadura e vivia a pasmaceira do final dos anos 80, Navarro, consciente ou não, fez valer o seu espírito “pan” e comandou a simbiose para com o seu ator fetiche.
Destino
E quis o destino que Betrand Duarte, mesmo com todos os perigos, tenha se dado ao jogo até as últimas consequências, devolvendo-lhe a “cortesia” com o talento monstruoso por meio do qual construiu o anti-herói esquizofrênico que voou para dar vazão aos seus sonhos e para redimir o nosso mundo de seus pecados.
*Raul Moreira é jornalista e cineasta
Filmes relacionados
Personalidades relacionadas
|