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27/10/08

Entrevista com Tuna Espinheira, diretor do filme baiano “Cascalho”

Roberto Midlej, do A Tarde

Tuna Espinheira, cineasta com longa estrada no cinema documental, se prepara para lançar comercialmente, na próxima sexta-feira(31), seu primeiro longa de ficção, "Cascalho", que tem pré-estréia nesta terça(28) para convidados no Multiplex Iguatemi.

Baseado no livro homônimo do romancista baiano Herberto Sales (1917-1999), o filme foi rodado na Chapada Diamantina e é passado na década de 1930, últimos momentos da era de colheita de diamante. Segundo o próprio Tuna, que é diretor e roteirista do filme, a produção é uma espécie de mural das relações entre os “coronéis” e os garimpeiros.

A realização do longa, que tem no elenco atores como Harildo Déda e Othon Bastos, só foi possível graças ao edital de roteiro Fernado Coni Campos, vencido em 2002. Na ocasião, o filme recebeu cerca de R$ 1,1 milhão, verba insuficiente para finalizar o projeto. A luta para que a produção chegasse às telas levaria ainda seis anos e consumiria mais cerca de R$ 400 mil. Mas, segundo o cineasta, para fazer o filme, seriam necessários pelo menos R$ 3 milhões.

Em entrevista ao repórter Roberto Midlej, Tuna fala sobre "Cascalho", mas não deixa de se manifestar contra o sistema desigual de financiamento para a cultura. “As leis [de incentivo] não são democráticas. Um ou outro consegue furar o esquema, por vivacidade ou maior charme, mas são exceções”, reclama o diretor, que em dezembro completa 65 anos e já está em nova batalha: tenta obter recursos para passar de vídeo para película seu mais recente documentário sobre Bel Borba.


A TARDE - Como surgiu o interesse pelo livro "Cascalho"?
Tuna Espinheira | O livro sempre esteve na minha cara, porque, na biblioteca de meu pai, estava num lugar muito visível. Na minha casa, as pessoas liam muito, então meu conhecimento é do meu começo de adolescência. Quando Herberto Sales [o autor] veio fazer a comemoração de 50 anos de publicação, eu disse a ele que queria fazer um roteiro e ele disse: ‘Faça e me mande’. Fiz, mandei e ele aprovou. Para mim, o filme começou nesse dia. Aí, fui atrás de leis de incentivo, corri aqui e ali, na Bahia e fora do Estado. O roteiro chegou a ir pra Fortaleza num... como é que eles chamam isso? Um seminário que tem um nome americano...

AT | Workshop?
É! Não sei pra que essas coisas em inglês! Escolheram seis projetos e o meu foi um dos escolhidos. Isso foi ainda antes da retomada [que teve o início marcado pelo lançamento de "Carlota Joaquina, Princesa do Brazil", de Carla Camurati, de 1994]. Nunca tivemos o menor aceno da lei de incentivo. Só anos depois ganhou o edital de concurso de roteiro Fernando Coni Campos, de R$ 1,1 milhão. Evidente que esse valor jamais daria pra fazer o filme. O edital foi de 2002 e filmamos em 2003. O valor é baixo, mas fizemos com racionalização. Eram apenas 30 dias úteis pra fazer o filme.

Trailer de "Cascalho"


AT | Quais foram as dificuldades enfrentadas durante as filmagens?
Tinha especialmente três aspectos que dificultavam. O primeiro é que era um filme de época, passado na década de 30, com aquelas suntuosidades. Além disso, havia problema na captação direta de som e tudo foi filmado próximo à cidade. O filme não tem um fotograma sequer sem som direto. Outro problema foi filmar embaixo da terra. A cena da gruna foi toda iluminada com tocha.

AT | Adaptar um livro para o cinema sempre suscita comparações com a obra original. O senhor foi fiel ao livro?
O filme é uma espécie de mural daquela realidade de 1930 entre garimpeiros e coronéis. Evidentemente, isso é tirado do livro, mas fiz questão absoluta de colocar uma adaptação livre do romance de Herberto Sales. Quando me perguntam se tem isso ou aquilo do livro, eu digo: ‘Se quiser reler o livro, puxe na estante ou vá num sebo’. Livro é livro e filme é filme. O filme é uma adaptação que fiz com todo respeito à obra original, mas não vá ler o livro na tela porque não tem nada a ver.

AT | O senhor tem uma experiência de mais de 35 anos com documentários. Por que levou tanto tempo para fazer um longa de ficção? Foi desinteresse ou falta de oportunidade?
Para mim, cinema é cinema em qualquer tempo, em qualquer bitola. Pra mim, não faz diferença. Eu podia levar a vida inteira fazendo curta ou média, sobretudo no campo do documentário. Mas eu sabia das dificuldades para fazer um longa de ficção. Todo filme barato é muito caro. Já foi dito que cinema é coisa de rico. Hoje, você pega um telefone, agora com essas leis, liga pro marqueteiro de plantão e, se for o caso, para o diretor da empresa e diz: 'Tô chegando aí com meu projeto'. E eles não querem nem saber. Não existe julgamento de valor. O que interessa é a capacidade que você tem de chegar lá e isso tá loteado. Eu não ia fazer o filme se não fosse esse prêmio do governo do Estado. Eu não iria, eu não tenho charme pra isso.

AT | Qual foi o orçamento deste filme?
É difícil dizer exatamente, afinal, ele acabou tendo alguns ‘penduricalhos’. Teve R$ 1, 1 milhão do Estado, R$ 200 mil do Ministério da Cultura, R$ 40 mil do Fundo de Cultura para o som Dolby e para fazer duas cópias e mais R$ 25 mil de origem particular. E a Assembléia Legislativa entrou com mais R$ 10 mil para fazer os trailers do filme. Dentro de um projeto de pessoas com a cabeça no lugar, não poderia sair por menos de R$ 3 milhões. Todo filme brasileiro é feito com capital do governo. A Globo, quando produz filmes, não gasta um tostão sequer. Usa o poder através da lei de incentivo, que é a renúncia do governo. É tudo governo! Quando mandam para festival, quem paga é o governo. Isso não é democratizado, está loteado, tem um grupo que domina. As leis não são democráticas. Tem gente aí que nunca fez cinema e está fazendo filme de R$ 5 milhões, porque as leis de incentivo são uma maravilha.

AT | O fato de estar na Bahia diminui a possibilidade de conseguir um financiamento?
Claro que sim. É o que a gente chama de periferia. Mas, depois da gestão de Gilberto Gil, descentralizou um pouco, mas ainda não resolve. Não podemos deixar de dizer que houve mudança. Hoje, em qualquer concurso, é obrigado que algumas regiões tenham participação, pois há uma cota. As pessoas ficam horrorizadas com as cotas, mas aqui tem que ter cota mesmo. Ou a cota fica pra burrice, pro mau caráter e pro filhotismo? Filhotismo tem em toda área: política, cultural...

AT | O senhor usou as leis de incentivo?
A gente tinha esperança de conseguir alguma coisa, mas não conseguiu um tostão sequer. Nada! Tentamos todas as leis, mas é como eu disse. As empresas de porte que sobraram após as privatizações têm lá o porteiro kafkiano e para passar por ele você tem que ter o famoso cartão que atesta que você é filho de fulano. Aí, tem o marqueteiro da publicidade, que dita a estética hoje de todos esses lugares e ainda tem o diretor da empresa que recebe aquela folha já selecionada pelo marqueteiro e, em última instância, é ele que decide. Essas são pessoas humanas inatingíveis pela maioria das pessoas, mas não por esse grupo que consegue chegar lá.

AT | O senhor tentou captar por meio de que leis?
A Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual. Não pude usar o Fazcultura porque o filme já havia sido premiado pelo Estado no edital. Andei dois anos, agora, com a carta do Fazcultura debaixo do braço para conseguir recursos para outro filme, para transformar meu documentário O Bruxo Bel Borba em película. Consegui a carta, mas não consegui o dinheiro em canto nenhum. O que importa é ter conhecimento.

AT | Qual o papel do Estado no fomento à cultura?
A cultura é uma questão de Estado em qualquer parte do mundo. No caso do cinema, isso é mais que visível. Você pega, por exemplo, Almodóvar, que tem Oscar e tudo, tem trânsito em todo o mundo e você vê a abertura do filme, está lá: "Com la participación de..." Então, o governo espanhol está lá. No cinema francês, da mesma forma. A Alemanha também só faz cinema assim.

AT | Os Estados Unidos talvez sejam a única exceção.
Eles são os donos do pedaço. O empresário de lá sabe que o cinema dificilmente entra pelo cano em termo econômico. Mas também há um amparo. E existe o imperialismo americano no mundo todo. Você chega em Paris e vê isso: 70% ocupados pela produção americana, na Alemanha, na Itália... Só não é assim na Índia, maior produtor de cinema do mundo. Mas a cultura é questão de Estado. É item essencial, mas não pode é promover orgias. O Estado depende da cultura. Um filme brasileiro bem colocado lá fora faz melhor que metade dos embaixadores. A Bahia é conhecida através de Jorge Amado, Dorival Caymmi... Não é por causa de governo nenhum. É a cultura que transpõe o país.

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