19/09/07
Jornada de Cinema terá de ressarcir patrocinador por “autopremiação”
Lucas Cunha, do A Tarde On Line
Um fato no mínimo muito curioso aconteceu na última terça, 18, quando foram divulgados os vencedores da 34ª Jornada de Cinema da Bahia no Cinema do Museu, no Corredor da Vitória. O principal prêmio em termos financeiros do evento, patrocinado pelo Banco do Nordeste do Brasil (BNB) no valor de R$ 10 mil, para o melhor longa metragem, foi destinado para a própria Jornada de Cinema, na pessoa do seu organizador, Guido Araújo.
Nesta quarta, 19, ao ser questionada pela reportagem do A Tarde On Line sobre a legalidade de tal decisão, a assessoria do BNB informou, após pedir um tempo para conversar melhor com a organização da Jornada, que o banco “não concordava com a decisão do júri” e que o valor de R$ 10 mil, destinado para o prêmio de melhor longa, teria de ser devolvido. Isso deve acontecer quando houver a prestação de contas da Fundação da Escola de Administração da Ufba (FEA), responsável como pessoa jurídica pela Jornada, já que o resultado não condiz com o que estava previsto no contrato.
Decisão soberana
Antes da divulgação do prêmio, um dos membros do júri, o escritor Eric Nepomuceno, leu um pequeno comunicado em que explicava a inusitada decisão. “Tendo em vista a contribuição à divulgação da produção cinematográfica, difusão do cinema contemporâneo produzido na Bahia e no Nordeste, e com vistas ao desenvolvimento da atividade cultural na região, o Júri decide atribuir o prêmio BNB à Jornada Internacional de Cinema da Bahia, na pessoa de seu diretor, Guido Araújo.”, Os outros membros do júri eram: Rudá de Andrade, escritor e cineasta; Inês de Medeiros, atriz portuguesa, Bráulio Tavares, escritor e compositor, e Javier Corcuera, produtor peruano radicado na Espanha.
Questionado após a premiação sobre a decisão, Nepomuceno afirmou que a decisão não teve motivações externas, como a participação de apenas um longa metragem (o cearense “Patativa do Assaré – Ave Poesia”, de Rosemberg Cariry) ou o fato de não julgarem nenhuma das obras em competição aptas a vencerem o prêmio: “Eu, como outros membros do júri, nunca tínhamos vindo para participar da Jornada e achamos que, de tudo que a gente viu, o que mais merecia esse prêmio era a própria jornada”.
Ainda na noite de premiação, Guido foi questionado sobre a adequação do prêmio, e disse que o BNB tinha sido alertado sobre a situação – inscrição de apenas um longa na disputa. O coordenador da Jornada ainda afirmou que o banco teria liberado uma ‘abertura’ na premiação para se adequar a essa situação, e que então a ‘decisão soberana do júri’ teria sido a de premiar a Jornada.
Desentendimento
A assessoria do BNB confirmou que houve a consulta da coordenação da Jornada para avisar que haveria uma ‘readaptação’ do prêmio, mas, que só havia dado permissão para redirecionar o prêmio a um outro filme de outra categoria, como um média-metragem, por exemplo, ao invés de um longa. Não houve a consulta da Jornada, tampouco a liberação do BNB, para que o valor fosse destinado ao próprio evento. A assessoria do banco também respondeu que não haveria problema caso o documentário “Patativa do Assaré” fosse o premiado, mesmo já tendo ganhado o mesmo valor no Cine Ceará, também patrocinado pelo BNB.
Guido respondeu que “não cairia bem” premiar o mesmo documentário com o mesmo valor patrocinado pelo mesmo banco, em dois eventos diferentes. E sobre a decisão do BNB em pedir o ressarcimento durante a prestação de contas, o organizador da Jornada foi lacônico. “Se o BNB decidiu assim, não há o que se fazer”.
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