12/03/07
Encontros com Verger
João Carlos Sampaio
De A TARDE
O documentário Os Negativos, do cineasta espanhol radicado na Bahia Ángel Díez, apresenta um envolvente depoimento da fotógrafa Arlete Soares sobre as suas vivências com o etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, morto em 1996, aos 93 anos. Uma história que vai a público hoje, às 20 horas, no Teatro Castro Alves, com abertura do grupo Ilê Aiyê e a presença do governador da Bahia, Jacques Wagner.
A sessão marca o lançamento nacional da 3ª edição do ProjetoD ocTV, do Ministério da Cultura (MinC), que conta com 35 títulos, incluindo dois da Bahia, As Cores da Caatinga, de Isana Pontes, e Os Negativos, a atração da noite.
A exibição da fita vai ser precedida pelo lançamento de livro e DVD com pesquisas sobre cinema, realizadas pelo cineasta e professor baiano Geraldo Sarno.
Em 50 minutos, tempo pensado para a exibição televisiva – vai ao ar pela rede pública nacional no próximo domingo, às 23 horas –, Os Negativos abre espaço para a palavra, que funciona como catalisadora das imagens.
Díez faz a opção radical de esconder a personagem, que se expõe por meio de um depoimento tão pessoal. E trabalha com habilidade a recorrente questão da interferência na realidade durante a realização de um documentár io.
Díez registrou o depoimento em vídeo digital e depois gravou todo o material a partir de uma tela de televisão. O resultado é um ruído de imagem que preserva a figura da fotógrafa Arlete Soares e privilegia o que ela conta para as câmeras.
CONTRAPONTO – Cenas captadas em película 35mm, usada no cinema profissional, fazem um contraponto bem visível. “A minha relação é com o cinema, quis então deixar claro a diferença do vídeo”, diz o autor.
Para o produtor do filme, Cláudio Marques, um dos sócios da empreitada que deve trazer para a Bahia o circuito de cinema alternativo Espaço Unibanco (no antigo Cine Glauber Rocha), a presença das imagens em película de cinema funcionam como um “atestado da veracidade da fala da personagem”.
As cenas mostram closes de fotos e documentos e o entorno de onde o depoimento foi gravado, no escritório da Editora Corrupio (Barra), criada em 1979, para publicar os trabalhos de Pierre Verger.
Arlete Soares, 66 anos, criadora da Fundação Pierre Verger e da Editora Corrupio, que dirige até hoje, fala para as lentes, mas, na verdade, para o diretor. “Fiquei com o rosto colado à câmera, de modo que, olhando para mim, ela também estivesse olhando para o espectador”, conta Díez.
A sensação que o documentário passa é justamente a de uma conversa íntima, na qual a fotógrafa abre o seu coração para falar das alegrias, mas também das decepções e crises que teve com Verg er.
Indagado sobre a natureza do documentário, se este seria um filme sobre a Arlete Soares, sobre Verger, ou, ainda, sobre o etnólogo através do olhar da fotógrafa, que conviveu com ele por mais de 20 anos, Díez não hesitou: “É um filme de gênero, um filme de amor”. A definição aparentemente incomum para um registro do real encontra razão de ser na forma assumida pela fita, que flerta com a ficção.
Ángel Díez conta que realmente chegou a dirigir Arlete Soares, como se faz com uma atriz. “Gravamos em oito dias um depoimento que poderia ser dado numa tarde”.
Algumas falas foram repetidas, a partir de uma concepção elaborada para o filme. “Ángel pensa em todos os elementos cinematográficos, o som, a imagem, a ambientação...”, elogia Cláudio Marques, que fala do trabalho com entusiasmo: “Ele (Díez) desafia a equipe o tempo inteiro a elaborar o filme em conjunto”.
De acordo com a concepção do projeto, o filme contou com o aporte de R$ 100 mil, conferidos pela seleção em concurso público para o DocTV, mais o apoio da emissora pública local, no caso a TVE, que cedeu equipamentos e parte da equipe.
A fotografia é assinada pela argentina Paula A. Gullco, com som direto a cargo de Nicolas Hallet, assistência de direção de Marília Hughes e com consultoria de Sônia Dias.
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