Première de "Estranhos" marca estreia de novos profissionais do audiovisual baiano
João Carlos Sampaio, de A TARDE
O cineasta Paulo Alcântara apresenta nesta terça(12), em pré-estreia para convidados, o seu début em longa-metragem, o filme "Estranhos". A obra já passou por um teste de fogo, em abril do ano passado, quando competiu na seleção oficial do Cine PE, um dos quatro grandes festivais do País. O filme deve ganhar exibição regular em circuito, a partir de maio.
A obra conta histórias paralelas, que trazem um músico de rua apaixonado por uma ex-prostituta, por sua vez, casada com um tipo ciumento. Da trama, surgem outras situações, como as desventuras de dois ladrões que se envolvem de maneira incomum e ainda o eixo de trama que traz duas crianças vivendo o primeiro amor e a professora delas, paquerada por um açougueiro.
Composto por atores locais, o elenco conta com Jackson Costa, Nelito Reis, Ângelo Flávio, Caco Monteiro, Cyria Coentro, Mariana Muniz e Agnaldo Lopes. A produção é de Solange Lima, que divide os créditos com o próprio diretor e a coroteirista Carla Guimarães. A fotografia é assinada por um nome de peso, Antonio Luiz Mendes, que fotografou Doida Demais (1989), Guerra de Canudos (1997) e Bendito Fruto (2004).
Trailer de "Estranhos"
Paulo Alcântara resolveu estrear em longa-metragem com um modelo de narrativa que vem sendo bastante utilizada, a das tramas paralelas, ou multiplot, com vários núcleos de ação, cada um com o seu ou os seus protagonistas, que, não necessariamente, convergem para um encontro ou desfecho comum.
O cineasta norte-americano Robert Altman (1925-2006) talvez tenha sido um dos que mais frequentemente se utilizou deste formato, que atualmente tem o espanhol Pedro Almodóvar como um dos que melhor o executam.
Acabamento
Alcântara sofre para encontrar um fio condutor capaz de sugerir o desencadeamento paralelo de maneira orgânica, talvez por sua pouca experiência ou por conta da falta de maturação do roteiro de Carla Guimarães e Santiago Roncagliolo.
A obra tem um acabamento mais comum em telenovelas, com núcleos que não se comunicam bem, a não ser por arranjos pouco elaborados. Utiliza de cenas vazias de significado, como tomadas da cidade, para tentar ligar o que está inevitavelmente separado. O que poderia ser um ponto de respiração na dramaturgia, apenas separa blocos de ação.
O elemento coincidente entre os personagens, sugerido desde o título, um certo comportamento social fora do comum se mostra rico em alternativas, mas que são fragilmente desenvolvidas. Há mesmo uma ingenuidade nas soluções de enredo, um pouco minorada pela atitude de entrega do elenco.
Aplausos
O bom grupo de atores sabe dar verdade às situações mais elaboradas e o esforço resulta em alguns bons momentos que se pode pinçar no curso da trama. Cenas estas que chegaram a inspirar aplausos durante a projeção inaugural no Cine PE 2009, festival que concedeu o prêmio de Melhor Trilha Sonora ao longa-metragem.
Estranhos tem que ser saudado pelo fato de trazer muita gente nova, que, aos poucos, vai buscando o seu espaço no audiovisual baiano. Se Alcântara não tentasse minimizar as arestas e prováveis dúvidas comuns aos iniciantes com arranjos tão conservadores teria feito uma obra com mais vigor.
Mesmo imperfeito como ficou – especialmente no trecho final que não consegue dar um fecho ou fechos para as ações paralelas – o filme deixa a sensação de que poderia ser mais convicto nas suas proposições, mas este juízo não é para ser tomado como algo efetivamente ruim, antes até é um alento. Há potencialidades a serem aperfeiçoadas.
Serviço:
O quê: Pré-estreia do filme "Estranhos", de Paulo Alcântara. Com Jackson Costa, Nelito Reis, Ângelo Flávio, Caco Monteiro e Cyria Coentro Onde: Espaço Unibanco - Glauber Rocha Quando: Terça, 12, às 21 Valor: Apenas para convidados