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"O Solista" ("The Soloist"), de Joe Wright, é um daqueles filmes de narrativa comovente, que exige do espectador algo mais do que a contemporânea postura cínica diante da vida.
A construção da fita merece crédito por saber evitar o melodrama e trazer para a linha de frente uma história sincera e cativante. A dupla de protagonistas, Jamie Foxx e Robert Downey Jr., desenvolve interpretações muito competentes.
A trama se passa nos dias de hoje, nas ruas da cidade norte-americana de Los Angeles. O foco é um sem-teto, interpretado por Jamie Foxx, ator premiado com o Oscar pelo seu trabalho na cinebiografia de Ray Charles.
Foxx novamente vive um musicista, desta vez, homem de formação clássica, que, não se sabe o motivo, vive como indigente. Um dia o personagem impressiona um jornalista, interpretado por Robert Downey Jr., encantado com a musicalidade deste mendigo, que extrai belos sons de um violino que só tem duas cordas.
O longa-metragem se inspira num acontecimento real, contando apenas com algumas modificações criadas pelo roteiro de Susannah Grant, a mesma de "Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento" (2001).
O repórter Steve Lopez, até hoje em atividade na imprensa norte-americana, mantinha os leitores bem ansiosos por sua coluna, sempre povoada de histórias inusitadas. Seus relatos revelaram a incrível trajetória de Nathaniel Ayers (Foxx), o tal músico desabrigado.
O trabalho investigativo de Lopez explicou as nuances por trás da vida do misterioso mendigo, o que fez ele se perder da família, dos amigos e até de si mesmo. A fita se põe a mostrar o caminho de volta, percorrido por este anti-herói.
"O Solista" é sobre curiosidade e capacidade de se preocupar com o outro. Trata igualmente de questões aparentemente periféricas, mas muito bem delineadas na fita. Uma delas é a crise de valores, refletida até nos veículos noticiosos.
Mas o enredo aborda também as questões ligadas ao desequilíbrio mental, perspassando ainda subtemas contemporâneos, como a mudança dos hábitos provocada pela tecnologia. O diretor inglês Joe Wright, de 37 anos, é uma das boas aquisições de Hollywood, mais um cineasta de origem européia radicado nos Estados Unidos.
Reclicando Antes, Wright dirigiu duas tramas de época, "Orgulho e Preconceito" (2005) e "Desejo e Reparação" (2007). Com esta última comprovou a sua habilidade como contador de histórias, trabalhando bem o recurso de passagens de tempo alternadas, contrariando a obviedade da ação cronológica.
Em "O Solista", o espectador acompanha a história misteriosa do músico de rua como se fosse um parceiro do repórter. O tipo vivido por Foxx vai se revelando na exata medida em que o personagem de Downey Jr. levanta o passado.
Isto garante uma dinâmica interessante à fita, prende a atenção, e comprova como faz falta a presença de mais diretores assim, com o dom de trazer novos ares para reciclar fórmulas esgotadas. |