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Há pelo menos dois níveis de leitura bem delineados na aventura dramática "Watchmen - O Filme", de Zack Snyder. A camada mais superficial apresenta ao espectador um folhetim que mescla mistério e suspense policial, tratando sobre o assassinato de um antigo herói mascarado. Num sentido mais aprofundado, esta fita examina as histórias em quadrinhos como fonte de uma mitologia que reflete todo o Século XX.
A origem desta película é a novela gráfica homônima, criada pelo argumentista de histórias em quadrinhos Alan Moore (que não quis ter seu nome associado ao filme) e pelo ilustrador Dave Gibbons. Minissérie originalmente publicada em 12 capítulos (no Brasil, saiu em seis edições), em 1985, a trama apresentava questões urgentes da agenda mundial à época, como a Guerra Fria, a corrida armamentista e o temor pelo armagedom nuclear.
Depois de transpor para os cinemas a história em quadrinhos "300", de Frank Miller, o diretor Zack Snyder voltou a investir numa fiel recriação. O roteiro mantém a cosmovisão dos anos 1980, que se manifesta desde o visual até a psicologia dos personagens.
O ponto de partida é o citado assassinato de um policial que usava máscara e assumia a secreta identidade de Comediante (o ator Jeffrey Dean Morgan), integrando uma corporação de disfarçados combatentes do crime. Na fictícia Nova Iorque da trama, uma lei criada em 1977 proibiu que os heróis uniformizados continuassem agindo.
A ação trata, portanto, de heróis aposentados, como Comediante. Após a sua morte, outro integrante do time dos Vigilantes (em inglês, Watchmen), conhecido como Rorschach (o ator Jackie Earle Haley), passa a investigar o crime por conta própria. As evidências e sua própria paranoia o levam a crer que se trata de um complô para eliminar os lendários heróis.
As suspeitas fazem com que Rorschach – que virou um foragido por não aceitar a lei contra os heróis de máscara – vá visitar seus ex-parceiros a fim de alertá-los sob o risco que podem estar correndo. Ele vai até o Coruja II (o ator patrick Wilson) e procura também Espectra II (Malin Akerman) e Dr. Manhattan (Billy Crudup). Este último, o único dos Watchmen a possuir superpoderes, depois de ficar exposto a um teste científico.
O grupo possui ainda o ex-vigilante Ozymandias (o ator Matthew Goode), que ficou rico comercializando a própria imagem, e os remanescentes de uma primeira legião de combatentes mascarados, que antecedeu a turma dos Watchmen, os Minutemen, do qual Comediante também fez parte.
O enredo dá conta do término de uma época, da derrocada das ideologias. Há um certo pessimismo de fim de século, mas com uma antevisão de renascimento. A paleta de cores do filme, os efeitos visuais e a fotografia alcançam uma excelência notável, que emoldura a consistente história, dando a esta aventura uma certa aura de obra cult.
Mesmo folhetinesco e nonsense, Watchmen faz pensar sobre valores éticos e questões existenciais que afligem não os poderosos fantasiados, mas o homem comum. De Billie Holiday a Tears for Fears, passando por Bob Dylan e Jimi Hendrix, a trilha sonora passeia pelas cinco décadas as quais a trama se refere. Assim o que se ouve é tão bom quanto o que se vê. |